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    Criamos esta seção com a finalidade de dar chance aos demais criadores de expressar sua opinião. Como não poderia deixar de ser, convidamos para essa primeira entrevista, aquele que consideramos nosso padrinho na cinofilia e o maior criador da raça atualmente. Com vocês, o Dr. CELSO BITTENCOURT DOS ANJOS, proprietário do CANIL TERRA DA PITUVA.


    Criador de maior sucesso dos últimos anos na raça Terrier brasileiro, o Dr. Celso Bittencourt dos Anjos, titular do Canil Terra da Pituva, já é há quatro anos o melhor criador da raça, tendo conseguido a façanha, por enquanto única, de produzir 4 campeãs mundiais em quatro anos consecutivos, sendo três delas, Liberté, Libertad e Desirré do Terra da Pituva parentes de primeiro grau entre si. Conseguiu também o feito pouco divulgado, com o exemplar Leoa do Terra da Pituva, ganhar o primeiro lugar no grupo dos terriers na França (Reims), país com grande tradição neste grupo, e com este exemplar, e mais outros dois (Dakar do Terra da Pituva, e Fama do Taduni, esta de criação de Dona Gilda M. Menezes, grande criadora do sul do país, localizada em Chapecó-Sc, porém descendente direta da criação Terra da Pituva) fechar o campeonato francês, estas vitórias provando a qualidade dos exemplares que tem exportado para a Europa, pois mesmo não sendo o canil que mais exportou Terriers brasileiros para lá, foi o que mais vitórias obteve. Também é criador de dois dos (por enquanto) quatro Terriers brasileiros a ganharem Best in Show em exposições gerais, no Brasil. Venceu também, com o exemplar Flora do Terra da Pituva, a raça na exposição "Brasil 500 anos" realizada no RJ, no único dia que esta foi julgada por juiz brasileiro.

Dados pessoais: Celso Bittencourt dos Anjos, 51 anos, gaúcho. Médico veterinário formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Sanitarista formado pela Universidade de Paris I / Pantheon-Sorbonne. Doutor em Saúde Pública pela Universidade de Paris III / Sorbonne-Nouvelle. Sanitarista da Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul. Professor na Faculdade de Veterinária da Universidade Luterana do Brasil/RS. Presidente do Clube Gaúcho do Terrier Brasileiro. Presidente do Kennel Clube do Rio Grande do Sul. Árbitro do sistema CBKC/FCI para os grupos 2, 3, 4 e 6. Bem, vamos às perguntas...

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1- Como é ser o maior criador de uma raça no mundo? E ainda, maior criador de raça brasileira nos 500 anos do Brasil?

R.: Eu não me acho o maior criador de Terrier brasileiro do mundo. É bem verdade que tenho me esforçado muito para uniformizar um biotipo e mostrá-lo pelos lugares, cidades e países por onde ando. É verdade também que tenho obtido excelentes resultados.

2- O Sr. acha que a raça foi prestigiada de forma adequada na comemoração dos 500 anos?

R.: Eu não estive presente no evento, mas dois cães de minha criação dele participaram, e um deles, Flora da Terra da Pituva, se fez campeã 500 anos. Foi uma grande emoção para mim. Voltando especificamente à pergunta, eu diria que numa exposição como esta, tão significativa para a brasilidade, fosse eu o organizador, definiria que somente juízes nacionais julgariam o Terrier brasileiro. Presta atenção, estou falando especificamente deste evento. O árbitro estrangeiro, neste caso, se descontextualiza, pela ausência de vínculos históricos e questões de identidade com a raça.

3- Talvez muitos não saibam, mas é patente seu trabalho na recuperação e construção de um tipo de Terrier brasileiro, com muita estrutura, que já não deve nada a nenhum outro terrier do grupo, usando cães de várias origens, inclusive de SP, mas sobretudo cães do RS, chegando a um tipo balanceado, mas muito atraente. Foi difícil chegar lá?

R.: Quando iniciei esta viagem cinófila, o fiz com cães de nossa propriedade. Esta criação começou com meu avô lá pelos anos 30. Posteriormente se seguiu com meu pai e hoje existe pelo meu empenho pessoal e de meus filhos. Um dos resultados de tantos anos de criação foi a excessiva consangüinidade. Alguns filhotes começaram a nascer com defeitos graves, o que me obrigou a buscar auxílio fora de nossos limites. Foi Leyla Rebelo quem me descobriu (Leyla soube pela criadora Maritza, do Canil Von Dewes, que existia alguém que tinha um monte de "fox" na sua propriedade rural). Ela fez contato comigo exatamente no momento em que eu buscava novo sangue para introduzir em meu plantel. Neste momento foi fundamental o sangue de Terrier brasileiro vindo dos seguintes canis gaúchos : Von Dewes, Rebelo's Beauty, Ipanema Fox, Clark Home e Sulfock. De Santa Catarina houve a participação do Canil da Cris e de São Paulo, do Canil Taboão. Posteriormente participou o Alcaide do Rio de Janeiro, o Marilú de São Paulo e alguns RIs provenientes de Minas, Bahia e do próprio Rio Grande do Sul. A partir desta grande mescla de origens, partimos para a busca de um cão bonito, harmônico de estrutura forte, sem ser tosco, ou grosseiro. O Terrier brasileiro necessita ser forte, evidentemente dentro de suas proporções e tamanho, já que é um cão de trabalho. Sua estrutura óssea e muscular devem ser compatíveis com sua função. Sobre se foi difícil chegar até aqui: eu respondo que sim. O produto está longe de ser acabado, até porque estamos lidando com vidas, com genética e com todas suas potencialidades de transformações. Hoje eu diria que estou particularmente empenhado em obter lindos pescoços de boa inserção torácica.

4- Até que ponto o Sr. compara o Terrier brasileiro ao Jack Russel terrier? É esse seu verdadeiro ancestral? Parênteses, acredita na versão de que esse ancestral seria o Fox terrier de pêlo liso antigo e também teriam sido usados buldogues franceses (inserindo na raça o anurismo)?

R.: Vamos iniciar pela questão origem. Tanta coisa já se disse sobre a origem do Terrier brasileiro .... Já se falou da participação do Jack Russel terrier, do Fox terrier de pêlo liso, enfim, cada um especula à sua maneira. O que parece ser verdade é a teoria de que cães do tipo terrier (sem identificação de raça), que exerciam a função de ratoneiros em navios europeus (particularmente os ingleses), aportaram em diversos portos do mundo e miscigenaram-se com cães nativos locais. Assim foi para a construção do Terrier japonês (sendo que neste caso se aponta para o Fox terrier pêlo liso), por exemplo. Não fora esse o entendimento, como explicar a existência de tantos assemelhados no mundo (toda a América Latina e do Norte; sul da Espanha, países nórdicos...). Enfim, entendo que o Terrier brasileiro começou a se definir no Brasil com as grandes navegações inglesas, já que aquela região sempre foi o berço dos terriers. Os franceses, por exemplo, acreditam que o Terrier brasileiro tenha origem no seu "vieux ratier" (velho ratoneiro), mas esquecem que este velho ratoneiro francês, é bem possível, tenha também sua origem na Inglaterra.

5- A raça voltou a ser reconhecida em 1995, com registro provisório até 2005, onde será homologado o padrão da raça após verificadas algumas providências por parte da FCI. Mas este padrão que está vigendo entre nós não é o oficial que está na FCI, inclusive apresente algumas incorreções, falta o quê para que se tenha esta tradução do padrão da FCI aqui?

R.: Esta constatação de que o padrão divulgado pela CBKC não é o oficial já é de conhecimento daquela entidade. Nós fizemos esta comunicação, oficialmente, no II. Seminário de raças brasileiras. Eu me encarregarei pessoalmente de reencaminhar a CBKC o padrão original, isto é, o que está registrado na FCI. Eu me sinto à vontade de fazê-lo porque participei com Leyla Rebelo de sua confecção, e fomos nós a discutir com o Dr. Brass da FCI o seu texto. De algum modo, erros e acertos deste padrão devem ser atribuídos a mim e à Leyla.

6- Ainda quanto ao padrão, este condiz com os cães da atualidade?

R.: Eu penso que existem ajustes a serem feitos. Em alguns itens o padrão se ampara num cartesianismo que engessa a prática, o real. Em outros itens o padrão é claro, mas ainda assim seus itens não conseguem se fazer observar por muitos árbitros, como exemplo eu citaria as cabeças amarelas e a falta de catrolhos em muitos exemplares que estão em pistas, inclusive sendo portadores de títulos de campeões ou grande campeões.

7- Caso pudesse ser alterado agora, quais seriam as mudanças que sugeriria?

R.: Eu sugeriria algumas mudanças sim: penalizaria as cabeças amarelas e a ausência de catrolhos, por exemplo. Introduziria o tricolor de isabela; eliminaria os purismos métricos. Gostaria de rever igualmente o quesito altura.

8- Nos dias 29 e 30 de janeiro deste ano, realizou-se em Porto Alegre, a segunda edição do Seminário de raças brasileiras, onde após discussões entre criadores, foi levada a plenário uma complementação do padrão. Porém, ainda não divulgada aos demais criadores e árbitros. O que está faltando para esta divulgação?

R.: Na verdade esta divulgação cabe à CBKC. É ela quem deve fazê-la para todos os árbitros e criadores do Brasil. No meu entender já estamos atrasados.

9- O Sr. concorda que a CBKC poderia em conjunto com os criadores estabelecer uma política de valorização das raças brasileiras (inclusive das que ainda não foram reconhecidas). Talvez promovendo seminários de aperfeiçoamento nestas raças, para árbitros e criadores?

R.: Claro que sim, esta seria uma iniciativa muito bem-vinda.

10- O Sr. acredita que em havendo um clube, associação ou conselho nacional para a raça, ela estaria melhor representada?

R.: Por determinação da própria CBKC, não é permitido a formação de clubes nacionais para nenhuma raça. Sobre o conselho, devo esclarecer que este existe, e a coordenadora é Leyla Rebelo.

11- Qual a possibilidade de se realizar uma exposição nacional da raça ou um festival de raças brasileiras? Lembremo-nos que já em 2001 haverá no Brasil a exposição das Américas e Caribe, talvez fosse um experiência interessante.

R.: Eu já estive conversando com Leyla a respeito da possibilidade de realizarmos a I Exposição Nacional de Terrier brasileiro em 2001. Se vamos coincidir essa data com a exposição de Américas e Caribe eu não sei, mas essa idéia é atraente. Deste modo poderíamos a todos mostrar a força de nossa raça.

12- Qual a sua opinião sobre o RI? Há muitos desses cães ainda sendo criados de maneira muito espontânea nas fazendas. Poderiam ser resgatados?

R.: Por ocasião do II Seminário de raças brasileiras, quando eu esperava poder anunciar que a FCI estaria disposta a fazer sua verificação final sobre o Terrier brasileiro, e lhe conceder o reconhecimento definitivo, neste momento, eu achava que o RI deveria acabar. Considerando que ainda existem muitos Terriers brasileiros por aí, e alguns muito bonitos, eu, hoje, revejo minha posição, diante do fato de tal reconhecimento definitivo estar programado para 2005.

13- Como criador achas que os julgamentos realizados pelos árbitros atualmente têm prestigiado os melhores cães em estrutura e beleza, ou apenas o melhor desempenho? A raça ainda sofre preconceito nas exposições? Não será tudo isso por falta de uma definição mais objetiva da cinofilia que desejamos, se americana ou a européia?

R.: A primeira parte da pergunta traz em seu bojo um juízo complicado: pois seria o mesmo que dizer que os árbitros efetivamente estão julgando mal o Terrier brasileiro, e isso seria no mínimo uma descortesia. Ao mesmo tempo, enquanto criador, recomendo que se valorize mais a estrutura e a dinâmica do cão, e não somente seu condicionamento para a pista. Esta questão do preconceito é bastante complicada... muitos de nós já ouvimos ou vivenciamos algum preconceito neste sentido, tanto no ato de expor como no ato do criar...eu não poderia dizer que sou refratário a este tipo de manifestação, mas devo confessar que me sinto menos afetado por tais estímulos negativos. A questão de pensar em cinofilia americana ou européia talvez não se aplique a esta questão: o que eu reclamaria e chamaria a atenção de todos, é que o brasileiro tem enorme dificuldade em valorizar o que é seu (talvez como uma herança negativa da colonização), e tudo o que vem do exterior, no geral, lhe aparenta ser melhor. Digam lá qual foi a raça que deu mais campeões mundiais ao Brasil? São 4 do Terra da Pituva, 3 do Taboão e 2 do Rebelo's Beauty. São 9 ao todo, qual outra raça conseguiu tal feito?

14- Como árbitro e criador, faça uma indicação do que deve ser analisado em um Terrier brasileiro num julgamento e quais seriam as características mais importantes a serem observadas e quais estão em baixa nos cães atualmente.

R.: Valorizo imensamente a cabeça (o que não vale necessariamente só para o Terrier brasileiro). No Terrier brasileiro gosto de cabeças fortes, bem esculpidas, de stop marcado, boa musculatura de suporte para a função da mordedura (afinal, é um cão de caça) e proporcionalidade de focinho em relação ao restante da cabeça. Esta cabeça, apesar de forte não deve ser grosseira, devendo ser harmonizada com o restante do corpo. Valorizo as cores da cabeça: para mim é importante a presença de "catrolhos" e é fundamental que apresentem o mínimo possível de tan invadindo o restante da cabeça (cabeças amareladas ou amarelas descaracterizam o exemplar) se houver branco na cabeça, é fundamental que a coloração branca, quando existir, esteja bem distribuída de modo simétrico, o mais harmônico possível. Rendo-me diante de belas orelhas. Relativamente ao pescoço, eu diria que se está pecando pela constituição: tenho visto alguns cães que ostentam pescoços curtos, toscos, inseridos abruptamente no tronco. Sobre o restante do corpo, e para que esta avaliação não se prolongue em demasia, digo que é fundamental que se entenda o que é difícil de fazer os estrangeiros entenderem: o Terrier brasileiro deve ter um corpo bem proporcionado, de formas arredondadas, inserível num quadrado. Os europeus nos diziam: como pode ser que um cão de linhas arredondadas seja inserível num quadrado? Isto não parece lógico aos olhos de um europeu, é difícil de compreender, mas é assim o nosso terrier! Ao referirmos corpo bem proporcionado, finalmente estamos nos referindo a que os troncos não devem ser nem longos nem curtos em excesso. Se o corpo do cão deve ser inserível em um quadrado, suas patas não podem ser nem altas demais , nem curtas demais. Finalmente, gostaria de referir que valorizo enormemente a massa muscular e óssea. O Terrier brasileiro pode ser utilizado como cão de companhia, mas ele é sobretudo um cão de trabalho, e para tal função, exige-se que seja forte.

15- Quais características podem ser melhoradas no plantel atual?

R.: Enquanto criador eu diria para que se cuidasse mais da questão da massa corpórea (musculatura e ossatura) que deve ser mais robusta e forte; observaria com mais rigor a questão de colorações, principalmente de cabeça; e dispensaria igual atenção aos pescoços, conforme referi anteriormente. Para mim é importante que se preste atenção quanto ao não desvirtuamento do "temperamento terrier", visto que tenho observado cães excessivamente tímidos em pista.

16- Mesmo na atual conjuntura econômica, o Terrier brasileiro tem crescido bastante, tanto em termos de quantidade como em qualidade, pelo menos é o que temos observado aqui no Paraná e nos resultados das exposições. O que falta para a raça atingir um patamar ainda mais alto?

R.: É difícil falar do que falta, seria muito pretensioso de minha parte imaginar que sou sabedor do que falta para o Terrier brasileiro seguir crescendo... De qualquer modo, arriscaria um ponto de vista: Falta que os brasileiros aprendam a valorizar mais as coisas do Brasil, e que os criadores de Terrier brasileiro não esmoreçam, que continuem crescendo, indo à luta com a mesma garra que iniciamos esse movimento. Que nos unamos cada vez mais. Na grande família do Terrier brasileiro não há lugar para estrelismos, vaidades desmedidas ou arrogâncias de criador. Somos uma grande família brasileira e assim devemos continuar sendo.

17- Na Europa, o Terrier brasileiro encontra um sucesso e aceitação cada vez maiores. Qual é o grande apelo da raça lá?

R.: Segundo eles é o fato de tratar-se de um cão pequeno, bonito e de função. Isto é, não precisa ser grande (os espaços são pequenos, no geral), não precisa ser furioso (lá não há a violência que conhecemos por aqui), é bonito mesmo (que me perdoem os não tão bonitos...) e é um excelente caçador. Enfim, é um cão bastante completo e versátil.

18- No seu entender há um consenso na criação da raça hoje? Será que os criadores sabem o que querem? Há uma criação correta e tecnicamente orientada, tanto no planejamento dos plantéis, como nos acasalamentos? O que poderia ser feito em prol desta coesão?

R.: Estas são perguntas muito difíceis de responder... Certamente muito há que ser feito em termos de criação. Eu não acho que exista um conceito de criação definido do ponto de vista cinotécnico. O Brasil é grande demais, a raça é relativamente nova do ponto de vista cinófilo e cinotécnico, e ainda não estamos organizados o suficiente para estabelecermos trocas que permitam à raça somar ainda mais pontos em sua importância e evolução. Mas chegaremos lá, com certeza, e, neste sentido, é fundamental o auxílio dos clubes ecléticos, da CBKC, e dos árbitros, evidentemente. Fica aqui implícito, a importância capital e o grande papel que têm os criadores, em tudo isto.

19- Qual é o futuro que o Sr. vislumbra para a raça?

R.: Se nos mantivermos unidos enquanto criadores, sem hegemonia de ninguém, e com a ajuda da CBKC ninguém mais segurará o Terrier brasileiro. Eu, sem necessitar de poderes metafísicos (que não os tenho), antevejo um grande futuro para o nosso cãozinho.